Quando ouves falar sobre ‘Banda Desenhada’ em Cabo Verde, qual a imagem que vem? Uma arte legítima e valiosa ou uma produção menor no todo ecossistema dos livros e das publicações nas ilhas?
É verdade que historicamente tem existido uma certa percepção de menoridade em relação à banda desenhada (aquilo que localmente chamamos de ‘Quadrinhos’), mas nota-se uma certa mudança gradual nesta visão. Autores de banda desenhada estão a ganhar mais reconhecimento com esta forma de arte, também ela capaz de expressar esse nosso Cabo Verde, suas culturas e histórias únicas. Claro que não se pode falar de uma indústria de banda desenhada no país, mas temos nomes nesta vertente criativa que despontam para dar os seus contributos.
Como meio de expressão, a Banda Desenhada tem sido pouca utilizada ao longo dos tempos no nosso arquipélago. Nada que se compara à história cultural que é fortemente influenciada pela música, literatura e as artes plásticas tradicionais. Bom, podemos apontar que ver a BD como uma forma de arte “menor” em relação a outras expressões artísticas mais estabelecidas, não é exclusivo de Cabo Verde. Mas isso não pode servir de consolo ao analisar a situação local.
Existem grandes desafios que são transversais à própria indústria editorial nacional e que passam pela falta de infraestruturas de apoio à produção, distribuição de banda desenhada e plataformas de divulgação, o que contribui para uma certa marginalização do meio. Outro desafio dos ilustradores é conseguir pegar desta arte e apresentá-la ao público como uma forma de expressão local autêntica. Alguns tem optado por resgatar personagens do folclore, figuras históricas nacionais ou relatos que ouviam dos seus mais antigos para apresentar uma BD com uma linguagem que ressoa a crioulidade de olhos no Mundo. Desta forma procuram observar e expressar as identidades e as narrativas cabo-verdianas, especialmente para as gerações mais jovens. Contudo, vale ressaltar que a BD ainda é frequentemente vista como algo voltado principalmente para crianças e jovens, o que pode limitar a sua aceitação como uma forma de arte séria e multifacetada, mas isso é outro assunto.
Mais recentemente, a iniciativa BDPalop (projeto que a Jovemtudo Cabo Verde é parceira) tem contribuído para elevar o status da BD nos países africanos de língua oficial portuguesa (em especial Angola, Cabo Verde e Moçambique), com parceria em Portugal e de olhos no mercado de Brasil, promovendo-a como uma forma de arte valiosa e relevante. Eventos, lançamentos e a crescente popularidade entre os jovens que se candidatam à Bolsa Literária da BDPALOP sugerem que a BD em Cabo Verde continuará a evoluir e a ganhar o reconhecimento que merece. Ou seja, o futuro da BD em Cabo Verde parece promissor, com criadores emergentes a esquadrinhar temas locais e globais, mas sempre na espera do despertar do mercado para o potencial desta forma de arte como uma expressão cultural e comercial. Esta plataforma da BDPALOP proporciona um espaço para a internacionalização das obras nacionais e um intercâmbio de autores com um público que de outra forma não teriam fácil acesso. Bem como potencializando que mais autores publiquem fora do país, testem outras plataformas digitais e impressas para atingir novos públicos. Este é um projeto que ajuda a nutrir os talentos locais e a criar ligações com a comunidade global de banda desenhada. A Segunda Mostra de Banda Desenhada, organizada recentemente, é um excelente exemplo do esforço contínuo para promover o talento local. Este evento reuniu obras de autores de Cabo Verde, Angola e Moçambique, revelando um universo gráfico e narrativo diversificado, repleto de criatividade.
Entre os talentos emergentes que participam das três edições da BDPALOP, destacam-se os nomes das duplas Kitty Blunt (Argumentista) e Toze Art (wasl) (Ilustrador) ou Domingos Mickaell Luísa (Argumentista) e Coralie Tavares Silva (Ilustradora) ou Edna Tavares (Argumentista) e Heguinil Mendes (Ilustrador). Também se destacam Marco Rendall (Argumentista) e Tiago Rendall (Ilustrador) ou Alan Alan (Argumentista) e Rogério Rocha (Ilustrador) ou Hannah Correia (Argumentista) e Alberto Fortes (Ilustrador). E na terceira edição sobressaem Erick Fortes (Argumentista) e Gildoca Barros (Ilustradora) ou Cheila Delgado (Argumentista) e Merly Tavarez (Ilustradora) ou Christy Roberto (Argumentista) e Gilardi Reis (Ilustrador). Todas essas duplas, através das suas criatividades nos argumentos e ilustrações têm dado visibilidade à riqueza da cultura cabo-verdiana com estórias encantadoras de um imaginário das ilhas para o Mundo e narrativas visuais com personagens marcantes. De se realçar que essas duplas receberam uma Bolsa Literária no valor de 5 Mil Euros que os permitiu desenvolver e publicar os seus trabalhos através de livros e que chegam também ao público através de eventos e plataformas digitais.
Com o desenvolvimento destes talentos e com um maior reconhecimento é de se esperar que Cabo Verde tenha uma palavra a dizer na banda desenhada africana. Enquanto isso a BDPALOP continua na sua missão de incentivar, promover e divulgar o que fazemos de bom na Banda Desenhada em Cabo Verde e nos PALOP.
Agora, mais do que nunca, a BD em Cabo Verde está a mostrar ao mundo que as suas histórias merecem ser contadas e lidas. Dê também o seu apoio à nossa Banda Desenhada!
...
A 𝐁𝐃𝐏𝐀𝐋𝐎𝐏 é um movimento catalisador do ecossistema da Banda Desenhada no espaço PALOP e dos vários elementos da sua cadeia de valor. Este é um projeto implementado por quatro parceiros constituintes, a Anima (Moçambique - Coordenador do Projecto), a Bomcomix Estúdios (Angola), a Jovemtudo Cabo Verde e A Seita (Portugal).
Esta é uma iniciativa pioneira e insere-se no programa PROCULTURA, que pretende contribuir para a criação de emprego e geração de rendimento no setor cultural dos PALOP-TL, uma ação financiada pela União Europeia, co-financiada e gerida pelo Instituto Camões e co-financiada pela Fundação Calouste Gulbenkian.