Se ao longo dos anos também teve contacto com os livros ilustrados em Cabo Verde o mais certo é que notou algumas diferenças. Os mais atentos terão notado que a ilustração e a banda desenhada produzidas nas ilhas passaram por um processo de evolução notável, revelando-se como um reflexo da criatividade, inovação e desafios enfrentados pelos artistas locais. Quer seja para comprar, para oferecer ou apenas para folhear, este contacto terá despertado o olhar para as diferenças entre aquilo que se produzia nos primeiros anos da Independência, passando pelas décadas de 90 e mesmo no início de 2000 até chegar na produção vinte anos depois, na nossa actualidade.
Nas últimas décadas, o arquipélago tem testemunhado momentos de estagnação e súbitos avanços. Contudo, na evolução da ilustração e banda desenhada em Cabo Verde é evidente na transformação dos traços, motivos e paleta de cores utilizados. Historicamente, a ilustração cabo-verdiana caracterizava-se por um estilo mais conservador, frequentemente retratando cenas do quotidiano insular.
Por outro lado, artistas talentosos acrescentaram-se e oferecem novas abordagens estilísticas, combinando influências tradicionais da cultura cabo-verdiana com uma estética contemporânea e técnicas digitais. Pode-se notar que os criativos locais tentam revitalizar na procura de uma conexão dos leitores com a cultura cabo-verdiana, sem abrir mão de novas perspectivas e estilos inovadores, mais ousados e com influências globais.
Outra mudança significativa na cena da ilustração e banda desenhada em Cabo Verde é a entrada de jovens talentosas mulheres. Num percurso pavimentado por poucas mulheres, inicialmente destacam-se nomes como Luisa Queirós, Leopoldina Barreto, Mizé Costa, Graça Matos Sousa, Ivete Santos e Ana Maria Carvalho Furtado. Agora as jovens emergentes trazem consigo uma energia e um entusiasmo transformador nesta narrativa visual: Merly Tavares, Coralie Silva, Gildoca Barros (todas participantes do projeto BDPALOP) e também Elisabete Gonçalves, Belva Monteiro, Jija Teixeira, Nathalie Melo, Tai Vieira, Lavínea Monteiro, Suzy Andrade, Djamila Inocêncio e outras também tem contribuído para expandir esta representatividade e novas experiências visuais. Meninas que diversificam as narrativas visuais, mas também inspiram uma nova geração de leitores e criadores. Para além da habilidade técnica, esta nova geração de ilustradores e artistas de banda desenhada traz um frescor e inovação para a cena.
Os próprios autores de estórias têm ganhado com essa evolução, uma vez que os ilustradores locais têm contribuído para a criação de obras visualmente cativantes e culturalmente relevantes para as crianças. De Cabo Verde para o Mundo.
E por falar em outros espaços, é possível observar uma relação direta entre a evolução qualitativa da ilustração cabo-verdiana e as oportunidades internacionais que surgem para os artistas locais. Alguns ilustradores combinam influências tradicionais com técnicas contemporâneas e digitais e já vão atraindo interesses além das fronteiras do arquipélago.
Sim, temos avanços, mas há desafios que persistem, especialmente em relação à falta de consistência dos ilustradores na publicação de obras. A justificativa é a nossa inseparável dificuldade financeira que faz com que a produção não possa ser regular. As despesas associadas à criação e publicação de ilustrações e bandas desenhadas são um obstáculo significativo, levando com que alguns criativos só publiquem uma única vez ou tendo uma produção esporádica devido aos elevados custos envolvidos.
A falta de financiamentos contínuos, o preço elevado de materiais e de impressão, e a distribuição limitada são barreiras que dificultam a produção regular de novos títulos. Além disso, o mercado é pequeno, o que torna difícil para muitos artistas viverem exclusivamente da ilustração.
Como parte deste povo, os ilustradores também dão testemunho da resiliência e inovação na ilustração e banda desenhada em Cabo Verde. Com ou sem a criação de mecanismos de apoio para que os ilustradores possam superar os desafios financeiros e assim garantir uma produção mais consistente.
No todo, podemos falar da ilustração como um património artístico que merece ser valorizado, preservado e celebrado para que a cada geração se faça algo, se não melhor, diferente. Contudo, para que haja uma evolução sólida e sustentável, é necessário que haja mais investimentos em infraestrutura cultural, incentivos à produção artística e um mercado editorial mais robusto. O futuro promete muitas páginas a serem escritas – e desenhadas.